Munique, a mais alemã das Alemanhas

Uma cidade de interior com mais de um milhão de habitantes. Fácil de se locomover, cheia de história, arquitetura e cultura. E jardins. E cerveja. E cerveja no jardim. Eu já falei que tem cerveja?

A vida é boa em Munique. Você sai de casa, a pé ou de bicicleta. Se precisar ir muito longe, tem trem, bonde elétrico ou ônibus. Se estiver com preguiça e resolver dirigir, o que não falta é carro elétrico ou híbrido.

Seja qual for o meio de transporte, você vai ter conforto. Tirando a Marienplatz na hora da apresentação do relógio, em lugar nenhum você vai se sentir sem espaço.

As calçadas são amplas, as ciclovias largas, o transporte coletivo raramente fica muito cheio e a criminalidade é ridiculamente baixa. Isso é meio óbvio, dá pra saber isso assistindo uma matéria do globo repórter. Mas tem uma coisa que você só sente mesmo lá: o silêncio.

Claro que esse texto vai ter as dicas e detalhes turísticos da nossa viagem de casal, mas saiba que Munique é uma cidade pra você viver. Fazer coisas normais, como ir no supermercado (não esquece a sacolinha retornável), passear no parque, comprar pão, ir no Biergarten do bairro.

A vida é boa em Munique, pelo menos em fins de agosto, início de setembro, quase outono. Sol até 20h, calor suficiente pra andar de bermuda e quem sabe nadar na água gelada do rio ISA, que corta o English Park.

Mas vamos parar de sonhar e voltar ao turismo. Nossa viagem foi feita meio na louca, em cima da hora. Pra melhorar tudo, tivemos que comprar Euro bem na semana em que a Amazônia estava pegando fogo e o governo tentava apagar o incêndio cuspindo álcool. Mas a passagem e a hospedagem já estavam garantidas.

A hospedagem, pelo menos, acertamos na mosca entre as opções do Decolar: Holiday Inn Express City West. Fica a meio peido da estação Hirschgarten (que fica a 3 estações da Hauptbanhof, a central que te leva pra outras cidades e países), e a uma cagada do parque de mesmo nome. Além da localização, o hotel é confortável, novo, banheiro e chuveiro classe A e um café da manhã sem frescura mas arregaçado, que segurava a fome até duas da tarde.

Parque Hirschgarten

Depois de 24 horas de viagem, assim que chegamos no hotel, umas 14h no horário local, nem pensamos em descansar. Só trocamos as calças por bermudas e saímos pra desbravar a vizinhança.

Logo descobrimos que havia um parque bem na esquina do hotel. Não parecia grande coisa, mas fomos entrando e descobrindo que era gigante, lindo, bem preservado e limpo (desnecessário destacar isso, pois Alemanha). De repente, de longe, vimos umas mesas….UM BIERGARTEN!!!!!

Só faltou a gente correr em câmera lenta em direção ao oásis. No caminho, outra surpresa. Veados! Uma área cercada, do lado do Biergarten, cheia de veados (e algumas cabras), tão mansos e doces que vinham comer na mão das crianças.

Depois, no último dia, descobrimos que ali era um antigo parque de caça de nobres, no restaurante do parque tinha carne de veado no cardápio.

Mas o Biergarten virou um dos lugares favoritos. O clima é muito amistoso e familiar. A galera leva sua própria comida, arruma a mesa, se reúne. E CONVERSA. Bebe, come E CONVERSA. O sistema é meio self service. Sabe aquelas canecas gigantes de 1 litro que custam um rim por aqui? Lá elas ficam em um armário enorme, aberto. Você vai, pega a sua, escolhe onde quer comprar a cerveja, pega, paga e vai pra sua mesa. No caminho, pega um currywurst, um eisbein ou uma porção de fritas. Mas não esquece o pretzel!

 

Nos dias seguintes a gente teve que se planejar um pouco pelo que queria fazer e muito pela previsão do tempo. Reservamos museus e castelos pros dias de chuva e parques e montanhas pros dias de sol. Parece óbvio, mas uma viagem em que você pode mudar de planos de forma rápida e simples faz toda a diferença.

Sábado – Marienplatz + English Garten

Pelados no parque, surfe de rio e muita história.

Na escada rolante, subindo em direção à rua, o espetáculo já começa. Primeiro uma torre, depois outra, e a praça inteira, com centenas de anos de história te enche os olhos. Os ouvidos recebem o impacto das vozes e da música um pouco depois.

A saída do metrô, na estação Marienplatz, é tão impactante que mesmo fazendo esse caminho umas três vezes, a gente ainda se encantava como se fosse a primeira.

E era o primeiro ponto turístico oficial em Munique, depois de uma noite bem dormida, recuperados das quase 30 horas de estrada, aeroporto e avião.

Visitar a praça central serve pra ter uma ideia geral da cidade, de como funcionam as coisas. Se você fizer um Walking Tour, então, vai acabar pegando boas dicas locais quase de graça. Fora a aula de história das duas grandes guerras do século XX. Fora o show do relógio cuco gigante. Fora todos os prédios históricos, lojas e mercados. Fora as cervejarias antigas (que nem são tão legais pra comer e beber, mas valem a visita).

Como o dia tava bonito, fomos pro English Gartden, um parque enorme que tem entre as atrações o campo de nudismo e o surfe de rio. O parque é lindo mesmo. Uma das partes mais gostosas é um grande gramado que vira uma festa. Muita família, muito grupo de amigo fazendo piquenique, carregando engradados de cerveja e desafiando a hipotermia nas águas geladas do rio que corta o parque todo. Sério, a gente não conseguiu ficar 5 minutos com os pés na água, e olha que a gente tinha andado quase 20 km nesse dia.

Vimos gente pelada, mas não tiramos a roupa porque estávamos procurando o point do surfe, que acabamos encontrando quando já estávamos desistindo. Parece uma bobagem, mas quando você percebe, já passou mais de meia hora vendo o vai e vem das pranchas.

Domingo – Palácio Nymphenburg

Uma surpresa no jardim.

Outro dia lindo, fomos de no antigo palácio de verão da realeza. Logo na entrada, um jardim lindo com um lago cheio de cisnes. Era só uma amostra grátis. Atrás do palácio é que fica o espetáculo da natureza. Só pra se ter uma ideia, o canal que corta o jardim no meio tem uma gôndola pros turistas otários endinheirados passearem e tirarem fotos. É uma mistura de jardim com parque, museu ao ar livre e jardim botânico. Até cervos a gente viu no meio da pequena floresta.

Palácio é palácio, vale pela arquitetura e pela curiosidade de ver como era a vida antigamente. Se você não tiver curiosidade de conhecer por dentro, economize seus euros e passeie só no jardim que é de graça. Ou gaste tudo na lojinha cheia de produtos “reais”.

Saindo do castelo e atravessando a rua tem um restaurante bem típico, com mesas ao ar livre, atendimento na base da grosseria simpática e comida honesta.

Nesse dia, uma notícia ruim no Brasil e problemas de trabalho fizeram a gente encurtar o passeio e voltar ao hotel. Acontece, paciência. A noite a gente duplicou os esforços no Biergarten.

 

Segunda – Castelo de Neuschwanstein

Dá trabalho essa atração. Vale a pena?

O único dia que não dava pra mudar, porque os ingressos já tinham sido comprados no Brasil. O castelo que inspirou Waldisney no design da casa da Cinderela é o resultado do encontro do dinheiro com a doidera de um homem.

Pra chegar lá é preciso ir a Füssen, que fica a duas horas de trem. Ou 15 minutos de carro, dependendo de qual você alugar. Brincadeira, brincadeira. Pegar o trem é fácil, comprar a passagem é que precisa de um pouco de atenção. (pegamos todas as dicas no Viagena Viagem).

Chegue cedo pra pegar lugar, os assentos não são marcados e costuma lotar. Leve comidinhas, água e aproveite a paisagem. Chegando em Füssen já tem ônibus na estação pra te levar pro castelo. Custa mais um dinheirinho, mas quebra o galho. Se quiser andar, deixe pra volta.

A visita dura só meia hora mesmo e se você não estiver na frente da catraca na hora do seu ingresso, dançou. Como quase tudo na Alemanha, não tem gente pra atender. É tudo máquina, e máquina não tem muita flexibilidade pra negociar.

O contato humano é mínimo também dentro do castelo. Os guias são treinados pra serem simpáticos, mas dentro do roteiro e do audioguia. Cada visitante vai passando de sala em sala com seu aparelhinho, ouvindo as explicações nos fones de ouvido e balançando a cabeça, com os celulares coçando nos bolsos (é proibido foto e filmagem).

A história da construção do castelo, as (ins)pirações do rei Ludwig II da Baviera (spoiler: ele morou menos de um ano no castelo) pra arquitetura tornam a visita bem interessante, mesmo rapidinha. Fizemos também o outro castelo do complexo, o Hohenschwangau, que não tem grandes atrativos imperdíveis.

Mas o lugar infalível é a ponte de onde se avista o castelo. É lugar perfeito pra ver a construção inteira, pendurar aquele indefectível cadeado do amor e caprichar na selfie. A ponte fica muito cheia em qualquer tempo e época do ano, mas andando um pouquinho mais pro fim (use seus cotovelos e excuse me – ou entschuldigung) você consegue um espacinho pra fotografar em paz.

Como estava chovendo e frio, optamos por voltar de ônibus pra Füssen. Uma pena que chegamos na cidade com o comércio já fechando, mas ainda deu pra comer uma boa pizza (a cidade tem bastante população de origem italiana) em um cantinho bem simpático.

Pegamos o último trem pra Munique – que nem era direto e por pouco a gente não perde por causa desse detalhe e duas horas depois finalmente nos esquentamos em nosso maravilhoso quarto de hotel.

 

Terça – Salzburg

Em busca de mais um carimbo no passaporte na cidade do menino Amadeus

O programa do dia era atravessar a fronteira da Alemanha com a Áustria e conhecer a cidade natal de Mozart, e muito mais importante que isso, o país natal de Arnold Schwarzenegger.

Mais duas horinhas de trem olhando paisagens bucólicas e chegamos. Uma perguntinha aqui e ali, achamos um ônibus que ia pro centro e dá-lhe andar. A cidade é uma delícia. Ruas estreitas que desembocam em grandes praças, que levam a outras ruas estreitas e pórticos e praças e pontes.

De qualquer lugar, você enxerga a fortaleza que fica no alto do morro. Fomos muquiranas e não pagamos ingresso pra subir de bondinho. A pé só é possível ir até certo ponto, numa subida curta mas íngreme feito uma parede. Vale subir e depois descer por outros caminhos, que passam por ruelas e escadarias.

Almoçamos num restaurante com mesas na rua, demos oi pra várias estátuas de Mozart (e infelizmente nenhuma do Schwarzenegger), pegamos ônibus errado e tomamos cerveja numa das cervejarias mais antigas do mundo, embaixo de uma árvore num lindo dia de sol. A vida é boa.

 

Quarta – Zugspitze

A maior e mais fácil de subir montanha da Alemanha

A maior montanha da Alemanha, com 2.600 metros. E você não precisa ser alpinista pra chegar no topo. O Zugspitze vale muito a pena. Custa uma boa grana, mas o que são 50 euros quando se pode descer uma rampa de gelo (natural) em cima de um trenozinho de plástico? O que são 50 euros quando se pode beber uma cerveja olhando o mundo de cima?

Confia na engenharia alemã e entra no bondinho. Lá em cima, uma plataforma te dá visão 360 graus de toda cadeia de montanhas. Tudo é organizado, tem estrutura de shopping e ao mesmo tempo te permite uma sensação de aventura se você quiser explorar um pouco mais o espaço.

É divertido, é único e precisa ser feito. Dicas: escolha bem o dia, de acordo com a previsão do tempo e só use o trem de cremalheira se realmente tiver muito medo do bondinho: a maior arte do trajeto é dentro de túnel.

 

Quinta – Deutches Museum

Um museu de velhas novidades

Em um dia chuvoso, quer programa melhor que um museu? Um dos maiores museus do mundo, o Deutches é um museu antigo, com foco em quase tudo: ciências, astronomia, história, geografia, música, medicina, aviação, e muitos etc.

A exposição é bem irregular, algumas áreas são mais antigas, naquele esquema expositivo clássico, outras já contam com recursos de tecnologia e interação com os visitantes. Mas é simplesmente um dos maiores, mais tradicionais e conhecidos museus do mundo, então a visita é mais que obrigatória. Presta atenção na programação do dia: tem algumas atrações que acontecem em horários marcados: fomos na de instrumentos musicais e caixinhas de música antigas (e gigantes) e na de energia elétrica, com direito a raios, trovões e explosões.

 

Sexta – Um pouco de tudo

Sexta era o dia de ficar mais livre, era o último dia na cidade.

 

Fomos dar uma volta geral, andar sem destino – ou pelo menos com menos pressão de ver coisas específicas. Rodamos as galerias de arte, torramos euros em presentes artísticos pra filhota que ficou no Brasil (o baralho do Banski vai fazer sucesso na faculdade de artes) e voltamos pra Marienplatz.

A praça estava totalmente diferente, com barracas sendo montadas e um evento sendo organizado. Demos mais um rolê e voltamos pro bairro, ainda de dia. A vontade era de tomar a última cerveja no Biergarten de estimação, mas com o tempo meio chuvoso o local simplesmente fecha.

Acabamos jantando no restaurante do Biergarten, o que virou uma surpresa bem legal. Era como jantar em um palácio, com as paredes forradas de quadros e brasões de família. No cardápio, com a providencial ajuda do Google Translator, descobrimos que ali era área de caça de sua majestade e que Hirschgarten, pasmem, quer dizer Parque dos Veados. Ficamos com dó dos bichinhos e ficamos nas batatas mesmo.

De sobremesa, por que não voltar pra praça e ver o que ia rolar de festa por lá? As malas que se arrumem sozinhas, vamos aproveitar até o último minuto possível.

Concurso de beleza, drinks grátis, campeonato de avião de papel e uma praça lotada, vibrante, cheia de gente e felicidade. Uma bela noite pra se despedir de Munique e da Alemanha.

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